Entrevista com Alberto Boarini

“A prática terapeuta utiliza técnicas originárias do teatro, como a dinâmica do improviso, para desvendar traumas e outros problemas psicológicos.”

O psicodramatista Alberto Boarini foi entrevistado por Thiago Andrade em Campo Grande no dia 01 de março de 2012.

Lidar com traumas e dificuldades psíquicas por meio da encenação e do improviso, a partir de técnicas que remetem ao teatro espontâneo, desenvolvido pelo médico psiquiatra romeno, Jacob Levy Moreno.

A este método de investigação e tratamento de problemas psicológicos deu se o nome de psicodrama e, por meio dele, se oferece uma abordagem terapêutica das artes cênicas.

Moreno procurava uma maneira mais simples para tratar os pacientes, de modo que pudessem se abrir com maior facilidade, Explica Alberto Boarini, que há dez anos atua como psicoterapeuta e psicodramatista.

Ele veio a Campo Grande pela primeira vez, para ministrar o curso? Deusas em cena, no Instituto Gaya, na semana passada.

Pensado para ser trabalhado em grupo, o método baseia-se em encenações a partir de temas criados por quem comanda a sessão ou pelos próprios integrantes do grupo.

Em grego, a palavra drama tem um significado que por vezes é esquecido, ela denota ação.
Portanto, o psicodrama tem como objetivo transformar em ação aquilo que se passa pela psique.

Deste modo, se oferece aos participantes uma modalidade de expressão por meio da catarse de sentimentos e emoções, o desenrolar da atuação é realizado a partir de improvisos e pela espontaneidade de cada um dos que estão presentes.

Em meio ao grupo, é necessário resolver os conflitos interpessoais e fazer o trabalho se desenrolar.
Os pacientes, que podem ser protagonistas ou público, se defrontam com questões ligadas aos problemas que enfrentam e são obrigados a lidar com elas.
Mas tudo acontece de maneira lúdica, o que favorece ao processo e quebra a seriedade dos consultórios psiquiátricos, expõe Boarini.

A sessão, segundo ele, se inicia com o aquecimento corporal e intelectual e nele surge o tema que será explorado durante a dramatização, o segundo momento de cada encontro.
Neste ambiente, o terapeuta se torna o diretor da cena e é acompanhado de egos auxiliares, que contracenam com os pacientes, interpretando.

Em Campo Grande, o instituto Gaya é um dos principais desenvolvedores das técnicas de psicodrama do Estado.

 Desde 1996, o instituto vem formando turmas e grupos de psicodramatistas. Estamos iniciando nossa sexta turma, de um curso que tem duração média de dois anos e meio, explica Rômulo Said fundador da instituição.
Segundo ele, por oferecer ferramentas aos psicoterapeutas para atuar além da clínica e do consultório, o curso conta com bastante procura.

Trabalho específico

Ao psicodrama de Moreno, ­ Boarini conseguiu aliar às teorias de Roger Woolger, desenvolvendo uma espécie de possibilidade ­de­ vivência psicodramática chamada Deusas em cena, na qual cada participante é estimulado a desenvolver das seis deusas descritas pelo psicoterapeuta jungiano inglês.

Atena, Afrodite, Ártemis, Jacob Levy Moreno Perséfone, Deméter, Hera e Perséfone, segundo os estudos de Woolger, representam traços presentes da personalidade de cada pessoa. Segundo Boarini, todos sejam homens ou mulheres têm as vidas regidas pelas características
descritas no trabalho de Woolger.

O Woolger passou cerca de 10 anos estudando o comportamento humano e a relação que ele tinha com a mitologia grega. Com uma abordagem holística, que muito se relaciona com o pensamento do psicanalista austríaco Carl Jung e aproximando-se das noções de Moreno, Woolger criou um trabalho específico que se desenrola a partir do psicodrama.

Quem participa de uma vivência tem a oportunidade de expor aquela deusa com quem acredita ter maior afinidade e por meio da relação com outros do grupo percebe formas de equilibrar certos traços característicos, explica Boarini.

Entre os participantes, o psicólogo Agenor Nunes de Souza, que concluiu o primeiro nível do curso de especialização em Psicodrama, realizado pelo Instituto Gaya, afirmou que o encontro de quinta-feira oportunizou o conhecimento de novas maneiras de utilizar o psicodrama.
Para ele, as teorias de Moreno têm abordagem variada, podendo servir a diversas formas de ação da psicologia.

O principal, a meu ver, são as ferramentas oferecidas para o trabalho em grupo, que vem sendo preconizado pelo Sistema Único de Saúde quanto aos atendimentos psicológicos, e também para trabalhos em empresas ou qualquer forma de trabalho em grupo, pontua o
psicólogo, formado em 2008, mas que já estudava o trabalho de Moreno desde 2000.

Segundo ele, o encontro, que reuniu cerca de 40 pessoas, conseguiu cumprir bem seu papel, o de divulgar o trabalho que vem sendo realizado na área.

Aplicabilidades

O método desenvolvido por Moreno em meados do século XX oferece possibilidades de intervenção e pesquisa das relações interpessoais, podendo ser utilizado de maneira terapêutica, pedagógica, empresarial, entre outras.

Nos primeiros anos de desenvolvimento do Teatro do Espontâneo, as técnicas eram resguardadas aos hospitais psiquiátricos, mas posteriormente, Moreno desenvolveu o conceito de Psicoterapia de Grupo, válido até hoje e utilizado em diferentes contextos. Para o psiquiatra romeno, seu método de trabalho era capaz de mobilizar os integrantes do grupo para vivenciar a realidade reconhecendo as diferenças e os conflitos. Com isso, se tornaria possível criar alternativas para a resolução de conflitos e traumas a partir daquilo que era revelado na interação entre os envolvidos.



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